aβsynto Vocέ: Poetas Consagrados

 

"Há quem diga que todas as noites são de sonhos.Há também quem garanta que nem todas, só as de verão.Isto não tem muita importância. O que interessa mesmo são os sonhos..."

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domingo

Não me Peçam Razões...

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

quinta-feira

Eros e Psique


Eros e Psique


Fernando Pessoa
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Publicado pela primeira vez in Presença, n.os 41-42, Coimbra, maio de 1934. Acerca da epígrafe que encabeça
este poema diz o próprio autor a uma interrogação levantada pelo crítico A. Casais Monteiro, em carta a este
último:

A citação, epígrafe ao meu poema "Eros e Psique", de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do
Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente - o que é fato - que me foi
permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de
1888. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a
origem) trechos de Rituais que estão em trabalho [In VO/II.]

quarta-feira

O gato


Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;
Guarda essas garras devagar,
E nos teus belos olhos de ágata e aço
Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias
Tua cabeça e dócil torso,
E minha mão se embriaga nas delícias
De afagar-te o elétrico dorso,

Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo
Como o teu, amável felino,
Qual dardo dilacera e fere fundo,

E, dos pés a cabeça, um fino
Ar sutil, um perfume que envenena
Envolve-lhe a carne morena.

domingo

Epigrama

Amar, foder: uma união

De prazeres que não separo.

A volúpia e os prazeres são

O que a alma possui de mais raro.

Caralho, cona e corações

Juntam-se em doces efusões

Que os crentes censuram, os loucos.

Reflete nisso, oh minha amada:

Amar sem foder é bem pouco,

Foder sem amar não é nada.

sábado

Beijo Eterno

Diz tua boca: "Vem!"
"Inda mais!" diz a minha, a soluçar...Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morro por teu amor!

Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

sexta-feira

Prodígio


Prodígio! 

Como o Rei Lear não sentes a tormenta 
Que te desaba na fatal cabeça! 
(Que o céu d'estrelas todo resplandeça.) 
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta. 

A Desventura mais sanguinolenta 
Sobre os teus ombros impiedosa desça, 
Seja a treva mais funda e mais espessa, 
Todo o teu ser em músicas rebenta. 

Em músicas e em flores infinitas 
De aromas e de formas esquisitas 
E de um mistério singular, nevoento... 

Ah! só da Dor o alto farol supremo 
Consegue iluminar, de extremo a extremo, 
o estranho mar genial do Sentimento! 

terça-feira

A luz se foi...

§                     "A  luz se foi e agora nada mais resta a não ser esperar por 

um novo sol, um novo dia, nascido do mistério do tempo 

e do amor do homem pela luz".


Gore Vidal- "Juliano" (1964)

quarta-feira

Adeus!

ADEUS

 

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mão à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

 

Meto as mãos nas algibeiras

e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!

Era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!

e eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

no tempo em que o teu corpo era um aquário,

no tempo em que os meus olhos

eram peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

 

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor...,

já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

 

Adeus.

Eugénio de Andrade 

quinta-feira

Tuas mãos de Neruda



"Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem."

Hoje é dia de Neruda.
Dia em que a paixão toca,
noite que a saudade avassala,
tão forte que a voz me cala,
nessa hora, uso os versos de Neruda.

Sempre me serve de arauto,
quando me toma de assalto
essa paixão que alucina,
essa saudade sem fim,
esse vazio de todos,
esse vazio em mim.

Poeta mor da paixão,
empresta-me teus doces versos,
tão cheio de calor, cobertos
da mais insana loucura.
Que falem por mim agora,
ecoem a esmo a saudade que me tortura.
Arauto de minha paixão, doce poeta Neruda!


terça-feira

Do desejo



(...)
Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me 
De fidelidade e de conjura. O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele. 
E dele também não fui lacaia.

segunda-feira

O cheiro do(e) Ser


...
Là ou ça sent la merde
ça sent l’être.
L’homme aurait très bien pu ne pas chier,
ne pas ouvrir la poche anale,
mais il a choisi de chier
comme il aurait choisi de vivre
au lieu de consentir à vivre mort.

C’est que pour ne pas faire caca,
il lui aurait fallu consentir à ne pas être,
mais il n’a pas pu se résoudre à perdre l’être,
c’est-à-dire à mourir vivant...
(Pour en finir avec le jugement de Dieu - Antonin Artaud

domingo

A falta que ama














Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há. 

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento. 

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros. 

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se inteira,
em letras de conclusão. 

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus? 

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia. 

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar? 

terça-feira

A língua lambe


A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

sábado

Dúvidas


Nos doutes sont des traîtres, en nous faisant craindre d’agir, 
ils nous font perdre une bataille que nous pourrions souvent gagner.

sexta-feira

BEIJOS

 Não queres que eu te beije! E o beijo é a própria vida:

a invenção mais divina e humana do Senhor;

é o fogo em que se abrasa uma alma a outra alma unida;

é o prólogo e também o epílogo do amor!

 

  A lua beija o mar, nas ondas refletida;

o sol, beijando o céu, reveste-o de esplendor;

num beijo o orvalho alenta a planta emurchecida,

e a borboleta suga o mel beijando a flor...

 

  Deixa que o meu amor expanda os seus desejos,

 beijando os lábios teus sem nunca se fartar!

 Chega ao meu coração, escuta-lhe os latejos!

 

  A boca perfumada, ó deixa-me beijar!

Porque somente amando é que se trocam beijos

e porque só beijando é que se aprende a amar!


GUILHERME DE ALMEIDA 


sábado

Concerto para violino


OPUS III

O luar invade a casa
como uma serenata para cordas.

Na memória
essa lua olha
naquela sala antiga
o amor.

Minto.
Não era a mesma lua.
Nem a mesma sou.

Maria José Giglio

sexta-feira

Um Sorriso



Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
          embaixo
          te espetalas
quando
      com minha acesa antorcha e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina 
e mel
     que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
             que busco eu 
                        em fogo
              aqui embaixo?
              senão colher com a repentina
              mão do delírio
              uma outra flor: a do sorriso
              que no alto o teu rosto ilumina?


terça-feira

O Que Há em Mim é Sobretudo Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.

Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…





segunda-feira

Minha alma de Florbela...


Perdoem-me o trocadilho mas ultimamente a minha alma de Florbela tem me espancado... Tenho ficado a reler, sentir e sofrer com os poemas dessa grande poeta lusitana. 
Florbela seu codinome é Paixão, por sobrenome Penar. Minha reverência.

Fanatismo

"Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah!  Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca

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Cicatriz

Quem disse que mudei? Não importa que a tenham demolido. A gente continua morando na velha casa em que nasceu.

   Mário Quintana [pensador] www.pensador.info

 
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